Sorrisos e riscos
Tália saiu de casa seis e quarenta como sempre, pegou o ônibus e foi pra
escola, dessa vez não sorriu para o motorista nem para o cobrador, não se
sentou ao lado da ruivinha do sorriso bonito, nem olhou para a casa rosa da
primeira rua, muito menos disse bom dia para a velha senhora do terceiro ponto.
Ela chegou a escola e foi logo
se sentar na cadeira do fundo, bem longe de todos. Seu melhor amigo a olhou dos
pés a cabeça e se embasbacou, seus cabelos pretos que normalmente eram
envolvidos por lindos cachos de baby-lis estavam lisos e sem movimento algum,
não estava com o delineado de sempre, em vez das roupas estilosas criadas e
costuradas por ela, estava usando o velho uniforme da escola e no lugar do belo
sorriso que ela sempre esbanjava estava uma boca sem o tão conhecido gloss de
melancia.
Tália percebeu que Tiago a
olhava surpreso, mas sem querer dar satisfação a ninguém naquela hora
simplesmente fingiu que não viu. Ela tentava lutar, mas só o que vinha a sua
cabeça era aquele último dia, exatamente um ano antes e mais uma vez relembrou
tudo.
Era de tarde e como de costume
Henrique passou na casa de Tália, conversaram um pouco e se beijaram um pouco
mais, ele parecia muito feliz, como sempre, nunca houve pessoa tão radiante
como ele e por esse mesmo motivo nunca houve uma garota tão feliz por ter um
namorado como aquele.
Os dois se conheciam desde que
tinham cinco anos, sabe como é, mães que trabalham no mesmo lugar, sempre acaba
assim... Foram perceber que estavam apaixonados alguns dias depois que Tália
completou 14 anos, tão novos, mas tão apaixonados, os pais, mesmo sendo muito
conservadores acabaram aceitando, afinal o que queriam depois de ter forçado a
convivência daqueles dois por tantos anos?
Depois de alguns beijos, duas ou
três piadas e histórias do dia anterior, os dois decidiram ir à sorveteria do
bairro. Duas bolas de pistache pra ela e duas de limão pra ele. Uma caminhada
no parque, uma conversa séria sobre o novo cabelo da professora de geografia e
o dia passou, os dois tomaram seus caminhos, os dois com um sorriso no rosto.
Tália já estava no décimo sono
quando seus pais entraram no quarto com uma expressão muito séria, a mãe
começou a chorar e o pai não conseguiu dizer nada, ela logo se desesperou
achando que a vó havia morrido ou que seu irmão tinha sofrido um acidente de carro
depois de tomar algumas tequilas. Mas a mãe resolveu falar, e a cada palavra
que ela dizia as coisas só se tornavam ainda mais confusas, como ele pode? Como
ele pode fazer isso com ela? Era o que ela pensava, quanto egoísmo, ou seria
amor?
Ninguém imaginava que o menino
mais sorridente da escola, o menino que sempre dava bom dia aos motoristas e
aos cobradores, que arrancava um riso de quem quer que fosse até mesmo do velho
chato da outra esquina, iria, em uma noite qualquer, se levantar, tomar os
antigos remédios da mãe e voltar a dormir e nunca mais acordar...
Pena que ninguém se lembrava
mais, só ela, que depois daquele dia tentou viver a vida como ele sempre viveu,
mas que hoje só queria ser o que seu coração era desde aquele dia, frio e
solitário.
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