quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Sorrisos e Riscos

Sorrisos e riscos
Tália saiu de casa seis e quarenta como sempre, pegou o ônibus e foi pra escola, dessa vez não sorriu para o motorista nem para o cobrador, não se sentou ao lado da ruivinha do sorriso bonito, nem olhou para a casa rosa da primeira rua, muito menos disse bom dia para a velha senhora do terceiro ponto.
                Ela chegou a escola e foi logo se sentar na cadeira do fundo, bem longe de todos. Seu melhor amigo a olhou dos pés a cabeça e se embasbacou, seus cabelos pretos que normalmente eram envolvidos por lindos cachos de baby-lis estavam lisos e sem movimento algum, não estava com o delineado de sempre, em vez das roupas estilosas criadas e costuradas por ela, estava usando o velho uniforme da escola e no lugar do belo sorriso que ela sempre esbanjava estava uma boca sem o tão conhecido gloss de melancia.
                Tália percebeu que Tiago a olhava surpreso, mas sem querer dar satisfação a ninguém naquela hora simplesmente fingiu que não viu. Ela tentava lutar, mas só o que vinha a sua cabeça era aquele último dia, exatamente um ano antes e mais uma vez relembrou tudo.
                Era de tarde e como de costume Henrique passou na casa de Tália, conversaram um pouco e se beijaram um pouco mais, ele parecia muito feliz, como sempre, nunca houve pessoa tão radiante como ele e por esse mesmo motivo nunca houve uma garota tão feliz por ter um namorado como aquele.
                Os dois se conheciam desde que tinham cinco anos, sabe como é, mães que trabalham no mesmo lugar, sempre acaba assim... Foram perceber que estavam apaixonados alguns dias depois que Tália completou 14 anos, tão novos, mas tão apaixonados, os pais, mesmo sendo muito conservadores acabaram aceitando, afinal o que queriam depois de ter forçado a convivência daqueles dois por tantos anos?
                Depois de alguns beijos, duas ou três piadas e histórias do dia anterior, os dois decidiram ir à sorveteria do bairro. Duas bolas de pistache pra ela e duas de limão pra ele. Uma caminhada no parque, uma conversa séria sobre o novo cabelo da professora de geografia e o dia passou, os dois tomaram seus caminhos, os dois com um sorriso no rosto.
                Tália já estava no décimo sono quando seus pais entraram no quarto com uma expressão muito séria, a mãe começou a chorar e o pai não conseguiu dizer nada, ela logo se desesperou achando que a vó havia morrido ou que seu irmão tinha sofrido um acidente de carro depois de tomar algumas tequilas. Mas a mãe resolveu falar, e a cada palavra que ela dizia as coisas só se tornavam ainda mais confusas, como ele pode? Como ele pode fazer isso com ela? Era o que ela pensava, quanto egoísmo, ou seria amor?
                Ninguém imaginava que o menino mais sorridente da escola, o menino que sempre dava bom dia aos motoristas e aos cobradores, que arrancava um riso de quem quer que fosse até mesmo do velho chato da outra esquina, iria, em uma noite qualquer, se levantar, tomar os antigos remédios da mãe e voltar a dormir e nunca mais acordar...
                Pena que ninguém se lembrava mais, só ela, que depois daquele dia tentou viver a vida como ele sempre viveu, mas que hoje só queria ser o que seu coração era desde aquele dia, frio e solitário.
 Lara


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